quinta-feira, 17 de abril de 2008

Pronto-Socorro

Praça do Patriarca - São Paulo-BR
I
Findou o mês de outubro àquele dia. Ainda havia ventos frios... Ouvi dizer que os ares estão mudando o planeta, se para melhor ou se para pior, não sei bem dizer. Procuro vozes no tempo para me contar para onde vai o vento, se pros oceanos, se pros desertos. Os homens vão pra muito longe ou vêm aos hospitais queixar-se.

Novembro, quatro correntes de vento gélidos se vão em noite úmida. Tem chovido pouco neste início do mês -9 horas e 32 minutos-, a noite é morna e brisas gélidas me dão a sensação de outono-inverno meia estação subtropical. A cada instante que passa é mais um desperdício do meu sono, irrequieto. Da ponta da minha língua vem uma áfita por qualquer coisa ingerida às pressas que ajudou o meu stress a me trazer cá ao Samaritano com mais rapidez, hospital do tempo dissipado, gélido igual aos ventos. Não estou enfermo, mas ansioso. Minha mulher queixou-se de dores sub-abdominais, eu não sei avaliar tais diagnósticos, cistite, gases, talvez, palavras dela, por isso, vim socorrê-la ao Pronto-Socorro. Meu filho Enzo, 3 anos e 10 meses, dorme no banco traseiro do automóvel. Demora-se o pronto atendimento e os ventos frios me acompanham.

Sou plantonista com olhos de coruja mãe. Do banco do timoneiro, sou prontidão. O parque do estacionamento está movimentado, entram e saem automóveis polidos, alguns de janelas escuras que não se dão notícias. Não é novidade num estacionamento de automóveis, neste bairro, do pronto-socorro, tanto movimento de autos novos, ambulância agitada de luzes avermelhadas, pessoas apressadas, mães com crianças acobertadas com lençóis. Pais apreensivos fumam e alongam-se às paciências em chaminés a cheiro de tabaco. Homens fortes em ternos escuros, aparentemente, rudes e grandes, com seus talkmen ambulantes, são solidários entre si, conversam à distância. Talvez, discutam regras de disposição das máquinas e do comportamento das pessoas, alguns se agitam impacientemente no páteo, assistido pela guardiã da locadora. ­

Não sei quantas horas mais terei de esperar. Meu Enzo dorme. Ouço seus suspiros ofegantes. Mal acomodado, mexe-se, retorce-se. Mamãe à espera pacientemente pela burocracia do atendimento, sentada e sentindo dores ainda? Vejo-a através da transparência da porta-entrada de vidro, paciente impaciência. Saúde neste país demora muito. Casos extremos, sem nenhum “privilégio”, que não podem esperar nem um pouco a mais, morrem moribundos da má sorte em corredores da saúde pública. Impaciência também tem limite, paciência não. Devo esperar.

O privilégio de não se ter que esperar por socorro custa o tempo mínimo que se tem entre a vida e a morte. Não é este o caso. Mas se gasta com previdência pública e privada, e ainda, se tem que esperar enfadonhos atendimentos. - É mais sensato esperar por previdência privada? -É possível que seja. Tudo é caro e a qualidade dos serviços se conta sim, com muita paciência ou, então, não se deveria esperar tanto, se o atendimento é privado, exigimos então, no mínimo mais rapidez. Mas isso também não acontece, porque há dinâmica a outras emergências. Enzo dorme. Minha mulher é a impaciência sem emergência, indigna-se e acalma-se, e tem-se na esperança o amor e depois.

O relógio do descanso não pára, adiantam-se as horas. Meu corpo está cansado. Meus olhos ardem e reagem à fumaça de fumos e de monóxido de carbono, a poluição da impaciência aumenta e também dói. O pouco espaço entre o volante e a minha barriga me sugere o pavor da noite longa, e o marasmo das estações de rádio em marteladas maçantes repica aos tímpanos os ventos frios. Ouço no rádio do meu console a moça do tempo: amanhã vai chover. -Choverá? -Previsão para essa quarta-feira. – Meu Deus, amanhã vai chover! Tomara que seja à madrugada!

Se o homem pudesse, criaria um elo entre o tempo mítico e as origens dos males de então e de vindouros, e a solução deixava que as águas levassem a doença humana por esses rios diluídos, à madrugada, assim, ninguém ao amanhecer se lembraria do caos nem da lama. Todos os males assim seriam lavados ou preventivamente curados com as águas da quarta-feira às cinzas cinza. Aquelas crianças parariam de chorar, aquelas senhoras sonolentas, agora, estariam em suas casas descansando com seus maridos, aqueles senhores fumantes beberiam água ou vinho e estariam dormindo ao sono de amanhã, minha mulher, branca e alta de um louro escuro, talvez, já de faces mais coradas, ouviria as minhas reclamações, mas sorrir-me-ia sem mais dores nenhuma e mais feliz ao milagre das águas da chuva.

A vida é assim, às vezes, longa ou curta, mais ou menos doída para alguns, outras vezes, nada disso acontecera. Às vezes, a vida vem de corações para corações ou vão para corações transplantados e continua. Essa vida de distante, diz-se que vem de um tempo imensurável, sequer se sabe ao certo onde teria começado e nem aonde haveria de terminar. Há vida que vem capengando por ambulância, outras não chegam sequer ver a luz vermelhas tremulando do mundo, sucumbem-se e, nem se vêem capengando em nenhum lugar, perecem sem dizer aos pouquinhos nada a ninguém e fim.

Atrás do automóvel parou uma ambulância girando suas lanternas coloridas, há movimento de homens-bombeiro e civis consternados. Agem rápidos. Não notei a saída de nenhuma maca. Quem sabe a vida foi socorrida a tempo. Penso que seja um homem ou uma mulher, talvez uma criança grande que não a vi entrar. Embora haja hoje muita gente socorrendo animais de estimação, será? -gato, rato, cachorro, iguana, lagartixa, baratinha branca, tatu, porco-espinho ou, até mesmo, um passarinho doce que cantava triste a ilusão da liberdade, pois, mal interpretado, a solitária dona teve indigestão compulsiva de compaixão: mas não compreendeu o canto da avezinha infelizmente, ainda solidária à reencarnação, correu para o Pronto-Socorro dos animais, para tentar salvar a avezinha. Não sei. Tenho dúvida. Mas foi rápido o desfecho em volta da ambulância. Não vi o enfermo passar nem chorar, nem tampouco o canto do sabiá.

Pessoas transitam acompanhadas ou sozinhas pelo corredor ou pelo páteo do estacionamento. Alguns pagam taxas de permanência à moça da guarita que com um aceno aos homens fortes, num instante, aparece o automóvel e sobre as quatro rodas, alguém se vai sob as luzes das alamedas de Higienópolis ou Perdizes, porque esses bairros contíguos me confundem. Nunca sei se é um ou outro. Ainda mais nessas condições de padrinho do tempo vazio, d’onde só sinto a brisa gélida desses ventos daqui e ainda assim me dói a espera da minha paciência.

O relógio do painel marca o tempo suportável, possível ao meu tempo contínuo. Passam as horas e meia, enfadonho e solidão. Enzo se mexe no curto espaço do sofá traseiro da máquina rudimentar, mas soberba dos homens ditos modernos - brinquedo efêmero da necessidade adicional ao tempo possível da viagem da espécie de primata avançado, mas mutante breve. A moça do rádio anuncia: vinte três horas e trinta e um minutos em São Paulo.
- Mentira!
“A mentira não está no discurso, mas nas coisas”.
Então as coisas são mentiras e o discurso pode ser meia verdade, porque o discurso diz da mentira das coisas.
Mas por que meia verdade o discurso e não uma verdade inteira?
— Porque aí entraria o prolator da dita meia verdade que também é uma mentira. — Efêmera mentira!
— De que coisas você fala, homem solidário?
— Falo da vida.
— Então, tomo suas palavras, a vida do homem é uma mentira?
— É. A vida per si é uma mentira absoluta.
— Mentira absoluta!
— Eu sou uma mentira? — Absoluta!
— Sim. No Universo grande, flutuamos.
— Somos bolhas d’água avulsas.
— Sangue éter da própria esperança!
— Mentiras absolutamente.
— Vale-se do que é escrito só enquanto se lê o manuscrito.
— E depois acaba tudo.
Ainda manobro últimos instantes, cansado, às pressas, vem a mulher a ter-se a nós, convencida da cura dos males inoportunos e da glória do sono do menino.

In Verdades - 11 abr 2003

5 comentários:

Paulo/Ana disse...

Meu bom amigo, companheiro simão, passei alguns minutos a ler seus textos, interessantes, poéticos, curiosos e românticos em alguns momentos: Lucia Aprile, achei lindo, bela homenagem ao amor e ao companheirismo; Pronto Socorro, muito autêntico, crítico e até um pouquinho filosófico, diria um "conto narrativo" das tensões em que vive o homem na grande cidade, a bela São Paulo de todos nós.
Gostei muito de seus textos. Um grande beijo

Paulo/Ana

Paulo Roberto Araujo disse...

Valeu Simão, embora rápida e tardia (da noite) a visita em sua casa foi deveras apreciada (por esta pessoas que tu és, amada e querida por minha pessoa)!!!
Um grande abraço
E assim que possível olharei atentamente em teu sítio e para os teus sonetos, versos, prosas, poemas e encantamentos (agora na rapidez dos passos em que ocorre a minha vida pude apenas vislumbrar d'olhos o quão arrebatador é o teu sítio, logradouro único na sustentável leveza do ser de tua vida!!!
Paulo Roberto

bertolini15 disse...

Parabéns pelo teu talento amigo! "Pronto-Socorro" na minha humilde opinião sem dúvida foi o melhor! Um abraço!

Marcelo Armando

bertolini15 disse...

Parabéns pelo teu talento amigo! "Pronto-Socorro" na minha humilde opinião sem dúvida foi o melhor! Um abraço!

Marcelo Armando

Sonia Regly disse...

Sempre vejo seus sábios comentários nos Blogs de amigos como: Flor, Rosani e vim aqui conferir esse belo e inteligente espaço.Visite o Compartilhando as Letras, sua visita muito me honrará.Seu espaço é diversificado e alegre.