quinta-feira, 22 de maio de 2008

Crônica do Açaí

"Sereno Rio Jaburu Depoimento: A longa viagem até a comunidade de São João do Jaburu foi chuvosa e turbulenta, mas ao chegarmos fomos recompensados por este belo final de tarde no tranqüilo Rio Jaburu, e por um delicioso jantar preparado por Dona Maria Lúcia à base de peixe, camarão, farinha e açaí. (19/03/2004)" http://www.amazonia.org.br/

Quanta vez já me dei conta andando pelas ruas da cidade ou em galerias de shoppings de grande movimentação, ter lido em tabuletas as virtudes do vinho de açaí. Que eu saiba, essa frutinha roxa tem delicioso sabor desde a minha infância. Eu me lembro que quando bebia o vinho de açaí com farinha de mandioca torradinha cujos grãos estalavam nos meus dentes, não sentia mais fome nenhuma, durante todo o dia. Bebia-se em vez acompanhado das refeições, à noite dormia-se de barriga cheia e satisfeita. Muitas famílias nesse tempo e ainda hoje se alimentam de açaí e farinha d’água em uma poção, de um azul-escuro com nuance marinho. Já li em alguma estatística oficial que o índice de anemia em crianças da região ribeirinha é baixo devido o teor do composto natural e saboroso do açaí. Pois, é assim mesmo, meu caro e bom amigo, o povo da região, ora bebe açaí, ora bebe abacaba, suco natural de certas palmeiras nativas da Amazônia, ou suco de taperebá ou de murici, frutinhas saborosíssimas e ainda come pupunhas cozidas ao café da manhã, à falta do pão e do leite.

Li ainda pouco numa tabuleta frente a uma escola de 3° grau, aqui nas redondezas do centro da cidade, bairro da Liberdade, que uma poção de açaí é milagrosa, equivale por não sei quanto de teor vitamínico necessário à energia do organismo, é pura fonte de proteína ao frescor da bela idade juvenil. Peça o suco servido em cuia, tigela própria para se servir da poção mágica da fruta do momento: prove o açaí verdadeiro, dizia a tabuleta. Um dia desses, passeava pelo shopping center, então, resolvi experimentar a tal poção: o moço que me atendeu garantiu que o produto era da melhor qualidade, pois, logo me perguntou como eu queria beber o açaí, se queria com granulados de chocolates, com charutinhos de waffe caramelados, chantili, leite de coco, etc., ou se com sabor de acerola. - Fiquei imaginando, puxa vida! - Quanta opção! O que fizeram com o açaí! Fiquei pensando e pensando e, então, resolvi pedir a iguaria acompanhada com farinha de mandioca, aquela amarelinha e bem torradinha made in Cucurunã. O moço me olhou bem, sorriu timidamente e me disse que não me entendeu, assim como, eu também não o havia entendido, mesmo assim pedi que me servisse à moda da casa, a que tivesse mais saída.

- Prontamente senhor: aqui está o seu açaí! Bom proveito. – Obrigado.
Pois é, meu caro amigo! Provei o açaí que não tinha gosto de açaí, e além de todos os sabores imagináveis ainda havia “borra de café coado em filtro de pano”, tinha sensação de que eu engolia pó de café ou areia fina, cristais de açúcares insolúveis. Imediatamente chamei o moço uniformizado e de “quepe” de soldado, em detalhes vermelho e branco, camisa branca com detalhes vermelhos a cor da calça e tênis à moda jovem rebelde. - Pois não senhor, em que posso ajudá-lo? - Isso que o senhor me serviu é açaí, mesmo? - Sim, senhor, é açaí! - Todo mundo gosta, bebe essa “iguaria”, acha o máximo e sai daqui feliz. - Veja quanta gente vem experimentar o suco. - Veja quanta gente jovem e bonita e descontraída bebe açaí! - Pois, muito bem! - Então, perguntei do moço: - o senhor já bebeu açaí? - Claro! Bebo sempre que posso ou quando sobra nas tigelas, né? - É. Eu sei como é essa coisa, respondi. - Responda-me uma outra coisa, - pois não senhor! - O seu chefe ou encarregado de serviço ou se possível o seu gerente, posso falar com um deles? - Mas o que foi senhor, não ficou satisfeito? - Não. Não é nada disso, mas gostaria de dar só uma palavrinha com o seu gerente. É possível? Indaquei-o.

Nem demorou, veio o gerente. - Pronto senhor, em que posso ajudá-lo?
- Bem, eu li a tabuleta e todo esse marketing sobre o açaí, tomei a coragem e resolvi provar tal fantástica iguaria. - Então, o senhor não gostou? - Não, não, senhor Gerente, não é isso não! - Mas acho que não me serviram o açaí, porque eu havia pedido à moda da casa, cheguei até pensar que estava numa filial de algum quiosque de Belém ou Santarém ou até mesmo de Manaus, pois me enganei redondamente: açaí nesses lugares tem gosto de açaí, bebe-se em tigela-cuia com ou sem farinha, o senhor conhece a farinha d’água ou a de tapioca? - Não, não conheço essas farinhas. - Pois é senhor gerente, o seu produto não é açaí. - Pode até ser um concentrado de essência de pouco cheiro da fruta deliciosa, decorada com melaço colorido, para agradar crianças e jovens à mercê das “modices passageiras”, pois, para qualquer paraense que passe por aqui a provar a sua “coqueluche” irá esconjurá-la. - Quanto custa essa marmota? Meio sem jeito, respondeu-me educadamente o gerente: - Bem, se é assim, senhor, não lhe custa nada. – obrigado.

Melhor para mim, porém, já sentia a rejeição do estômago a tal sedução pelo gosto da saudade, tristes saudades dos quiosques das tardes quentes de Manaus e de Santarém – distante Amazônia. Portanto, meu caríssimo amigo, não se deixe levar pelo saudosismo, uma vez, disse um poeta da daqui –Concretista- Décio Pignatari: Beba coca cola / Babe cola / ... / cloaca.

In Verdades - Textos reunidos - 21 mar 2006

4 comentários:

Adriana disse...

Ótimo texto. Bravíssimo!!! Mas eu confesso: desconheço o verdadeito sabor do açaí... fiquei com vontade!!! Um abraço,
Adriana.

RICARDO APARECIDO DE disse...

Caro Professor:

Tivessem os brasileiros sua coragem, melhor seria nosso tão sofrido país.

Martha Barbosa disse...

Nossa, seus textos são fabulosos, adoro vir aqui.Gostei demais deste, aliás seu blog é 10.
Fiz postagem nova apareça por lá, seu comentário é importante .Um abraço
marthacorreaonline.blogspot.com

bertolini15 disse...

Simplesmente sensacional! Não só a estética perfeita do texto e a forma como prende a atenção de quem lê, mas, de fato, a atitude de expor aquele desabafo ao gerente! Esperemos que ele tenha realmente refletido sobre isso.