domingo, 6 de novembro de 2011

Pronto-Socorro I



Hospital Stella Maris - Guarulhos-São Paulo
I
Findava o mês de outubro, àquele dia ainda havia ventos frios... Ouvi dizer que os ares estão mudando o planeta, se para melhor ou se para pior, não sei bem dizer o quê. Procuro escutar as vozes do tempo a me dizer para onde vão os ventos, se vão pros oceanos, se vão pros sertões ou se vão pros desertos. Os homens vão pra muito longe ou vêm aos hospitais se queixarem das suas dores.

Novembro, quatro correntes de vento gélidos se vão em noite úmida. Tem chovido pouco neste início do mês - 9h32-, a noite é morna e brisas gélidas me dão a sensação de outono-inverno meia estação subtropical. A cada instante que passa é mais um desperdício do meu sono, irrequieto. Da ponta da minha língua vem uma áfita por qualquer coisa ingerida às pressas que ajudou o meu stress a me trazer cá ao Samaritano com mais rapidez, hospital dos tempos dissipados, gélido igual aos ventos. Não estou enfermo, mas ansioso. Minha mulher queixou-se de dores, sub-abdominais, eu não sei avaliar tais diagnósticos, cistite, gases, talvez, palavras dela, por isso, vim socorrê-la ao Pronto-Socorro. Meu filho Enzo, 3a10m, dorme no banco traseiro do automóvel. Demora-se o pronto atendimento e os ventos tristes me acompanham.

Sou plantonista com olhos de coruja mãe. Do banco do timoneiro, sou prontidão. O parque do estacionamento está movimentado, entram e saem automóveis polidos, alguns de vidros escuros que não se dão notícias. Não é novidade num estacionamento de automóveis, neste bairro, tanto movimento de carros novos, ambulâncias agitadas de luzes avermelhadas, pessoas apressadas, mães com crianças acobertadas com lençóis. Pais apreensivos fumam e alongam-se às paciências em chaminés a cheiro de tabaco. Homens fortes em ternos escuros, aparentemente rudes, e grandes, com seus talkmen ambulantes, são solidários entre si, conversam à distância. Talvez, discutam regras de disposição das máquinas e de comportamento das pessoas, alguns se agitam impacientemente no páteo, assistido pela guardiã da locadora.

Não sei quantas horas mais terei de esperar. Meu Enzo dorme. Ouço seus suspiros ofegantes. Mal acomodado, mexe-se, retorce-se. Mamãe à espera pacientemente pela burocracia do atendimento, sentada e sentindo dores ainda? Vejo-a através da transparência da porta-entrada de vidro, paciente impaciência. Saúde neste país demora muito. Casos extremos, sem nenhum “privilégio”, que não podem esperar nem um pouco a mais, morrem moribundos da má sorte em corredores da saúde pública. Impaciência também tem limite, paciência não. Devo esperar.

O privilégio de não se ter de esperar por socorro custa o tempo mínimo que se tem entre a vida e a morte. Não é este o caso. Mas se gasta com previdência pública e privada, e ainda, se tem que esperar enfadonhos atendimentos. É mais sensato esperar por previdência privada? - É possível que seja. Tudo é caro e a qualidade dos serviços se conta sim, com muita paciência ou, então, não se deveria esperar tanto, se o atendimento é privado, exigimos então, no mínimo mais rapidez. Mas isso também não acontece, porque há dinâmica a outras emergências. Enzo dorme. Minha mulher é a impaciência sem emergência, indigna-se e acalma-se, e tem-se na esperança o amor e depois.

O relógio do descanso não pára, adiantam-se as horas. Meu corpo está cansado. Meus olhos ardem e reagem à fumaça de fumos e de monóxido de carbono, a poluição da impaciência aumenta e também dói. O pouco espaço entre o volante e a minha barriga me sugere o pavor da noite longa, e o marasmo das estações de rádio em marteladas maçantes repica aos tímpanos os ventos frios. Ouço no rádio do meu console a moça do tempo: amanhã vai chover. - Choverá? - Previsão para essa quarta-feira. – Meu Deus, amanhã vai chover! Tomara que seja à madrugada!

Se o homem pudesse, criaria um elo entre o tempo mítico e as origens dos males de então e de vindouros, e a solução deixava que as águas levassem a doença humana por esses rios diluídos à madrugada escuras, assim, ninguém ao amanhecer se lembraria do caos nem da lama. Todos os males assim seriam lavados ou preventivamente curados com as águas da quarta-feira, às cinzas de cinzas. Aquelas crianças parariam de chorar, aquelas senhoras sonolentas, agora, estariam em suas casas descansando com seus maridos, aqueles senhores fumantes beberiam água ou vinho e estariam dormindo ao sono de amanhã, minha mulher, branca e alta de um louro escuro, talvez, já de faces mais coradas, ouviria as minhas reclamações, mas sorrir-me-ia sem mais dores nenhuma e mais feliz ao milagre das águas da chuva de amanhã. Salve as chuvas!

A vida é assim, às vezes, longa ou curta, mais ou menos doída, para alguns, outras vezes, nada disso acontecera. Às vezes, a vida vem de corações para corações ou vão para corações transplantados e continua. Essa vida de distante, diz-se que vem de um tempo imensurável, sequer se sabe ao certo aonde teria começado e nem aonde haveria de terminar. Há vida que vem capengando por ambulância, outras não chegam sequer ver a luz vermelha tremulando no mundo, sucumbem-se e, nem se veem capengando em nenhum lugar, perecem sem dizer aos pouquinhos nada a ninguém e fim.

Atrás do automóvel parou uma ambulância girando suas lanternas coloridas, há movimento de homens-bombeiro e civis, consternados. Agem rápidos. Não notei a saída de nenhuma maca. Quem sabe a vida foi socorrida a tempo. Penso que seja de um homem ou de uma mulher, talvez de uma criança grande, mas não os vi entrar. Embora haja hoje muita gente socorrendo animais de estimação, será? - gato, rato, cachorro, iguana, lagartixa, baratinha branca, tatu, porco da índia ou, até mesmo, um passarinho doce que cantava triste à ilusão da liberdade, pois, mal interpretado, a solidária dona teve indigestão compulsiva de compaixão: mas não compreendeu o canto da avezinha infelizmente, ainda solidária à reencarnação, correu para o Pronto-Socorro dos animais, para tentar salvar a avezinha. Não sei. Tenho dúvida. Mas foi rápido o desfecho em volta da ambulância. Não vi o enfermo passar nem chorar, ouvi nenhum canto de sabiá.

Pessoas transitam acompanhadas, ou sozinhas pelo corredor, ou pelo páteo do estacionamento. Alguns pagam taxas de permanência à moça da guarita que com um aceno aos homens fortes, num instante, aparece o automóvel e sobre as quatro rodas, alguém se vai sob as luzes das alamedas de Higienópolis ou Perdizes, porque esses bairros contíguos me confundem. Nunca sei se é um ou outro. Ainda mais nessas condições de padrinho do tempo vazio, d’onde só sinto a brisa gélida desses ventos daqui e ainda assim me dói a espera da minha paciência.

O relógio do painel do auto marca o tempo suportável, possível ao meu tempo contínuo. Passam as horas e meia, enfadonho e solidão. Enzo se mexe no curto espaço do sofá traseiro da máquina rudimentar, mas soberba dos homens ditos modernos - brinquedo efêmero da necessidade adicional ao tempo possível da viagem da espécie de primata avançado, mas mutante breve. A moça do rádio anuncia: vinte três horas e trinta e um minutos em São Paulo.
- Mentira!

“A mentira não está no discurso, mas nas coisas”. Então as coisas são mentiras e o discurso pode ser meia verdade, porque o discurso diz da mentira que são as coisas aparentes, meia verdade. Mas por que meia verdade o discurso e não uma verdade inteira? — Porque aí entraria o prolator da dita meia verdade que também é uma mentira. — Efêmera mentira!

— De que coisas você fala, homem sábio e solidário?
— Falo da vida.
— Então, tomo de suas palavras, a vida do homem é uma mentira?
— É. A vida per si é uma mentira absoluta.
— Mentira absoluta!
— Eu sou uma mentira? — Absoluta!
— Sim. No Universo grande, flutuamos bolhas efêmeras.
— Somos bolhas d’água avulsas.
— Sangue éter da própria esperança!
— Mentiras absolutamente.
— Vale-se do que está escrito só enquanto se lê os manuscritos.
— E depois acaba tudo.
Ainda manobro os últimos instantes, cansado, às pressas, vem a mulher a ter-se a nós, convencida da cura dos males inoportunos e para a glória do sono do menino.
II
Novembro chega ao fim, hoje é 28, 21h16min. Da janelinha do mundo, sou funcionário público, vi passar a chuva fraca e as horas cansadas. É interessante como se pode conciliar o tempo avulso com o acaso. As pessoas são as mesmas de ontem, amigas e ou hipócritas. Cuida-se de interesses, por isso, algumas são mais, ou menos velhacas. À tardinha, passei pelo supermercado, vi as pessoas consumindo as suas existências. Encontrei uma velha amiga de faculdade e entre tantas conversas me confirmou de seu doutorado, eu já sabia de outras. Perguntou-me da aposentadoria e do tempo que me falta. - Não sei, porque penso no meu filho, falta-me ainda algum tempo. A minha mulher fez cara de brava e passou por trás da tal amiga e disse que corria atrás do menino-Enzo. Despedimo-nos. Veremos-nos outras vezes... Será? - Me perguntei. - Outras vezes é um tempo do discurso vazio.

São Paulo é muito rápido. Muda-se a cada sol. Entre casas e prédios que se derrubam, constroem-se novas vias, as pessoas se vão ou se mudam ou não se conhecem mais. Toda selva é competente per si. Há cumplicidade entre o existir e o saber até enquanto se pode existir. Minha mulher já encontrou Enzo entre os brinquedos, agarrado a um “caminhão cegonheiro”, que não titubeou, deu-se de presente, só nos informando a sua opção. O problema da criança não é dinheiro, é brinquedo sem tempo de esperar.

Cheguei atrazado, sábado, 30 de novembro de 2003. Eu não pude participar da festinha do menino Enzo na Escolinha, minha mulher o acompanhou. Havia doces e, apresentações com teatrinho, música e até discurso ecológico. Segundo a mãe, ele se destacou entre as outras crianças. Minha opinião forçadamente é neutra. É possível que sim, porque ele é esperto e altivo. Um outro pai coruja aproveitou o ensejo e se divertiu também. Tirou algumas fotografias do seu menino junto ao meu. À noite, enviou-me pelo correio eletrônico, claro! Hoje, os recursos são enormes, nem demorou muito tempo e já estava na Internet, que agora é moda, porque se não se compartilhar com o mundo novo-eletrônico, não se vai mais longe. Sê virtual! Ser visual só para si não basta. Agrupe-se ao menos a outros blogs, nas ondas do etéreo a palavras de ordem!

Hoje já é dezembro, entre o custo de vida, a recessão, o clima abafado e as chuvas que por aqui não caem tanto, vai-se o segundo dia do mês mais cristão. Eu sinto que há nos ares de então, além das dificuldades da vida, solidariedade entre as pessoas. Percebe-se a humildade, a vaidade e a ignorância burra são mais toleráveis. As restrições são virtuais, porque é tempo de quem só faz do tempo perfil ignóbil da pequenez humana.

As árvores das ruas, as sacadas brilham de vaga-lumes tropicais e, as grandes lojas de varejo, os grandes shoppings estão enfeitados de luzes e de cartazes “off” promocionais. Já ouvi notícias de lojistas entusiasmados pelo faturamento próximo. Por onde passa a recessão? Fui até convidado para ocupar o apartamento de amigo no litoral, Guarujá 6, 7 e 8 do corrente e, no próximo dia 10, participar da inauguração de pousada de veraneio da amiga da minha mulher, também no Guarujá. Recessão que se preze é escassez, é falta de oportunidades, é choro angustiante, não é languidez.

Também fui convidado para uma festa de confraternização de Natal, onde trabalho, coisa do gênero que não me agrada e, na mesma seção. Disse que sim. Mas fiz algumas restrições: esconder-me-ia atrás dos dentes que me sobraram às arcadas e evitaria salgadinhos gordurosos. Respeitassem a isso, iria. Dezembro aflora sentimento de bondade ou de indiferença em algumas pessoas. Outras não querem se confraternizar. Outras se suicidam em angústia e infelicidade, outras se dão à paz. É comum no mês do Natal, ler-se em jornais suicídios, estupros, pedofilia, fratricídio, matricídios, parricídios e se chegarmos a nossa leitura até a última página, também leremos sobre a canalhice, velhacagem, alcovitice. Estupradores famintos da esperança alheia. E “Barrabás” — ladrões menores no engodo da subexistência.

Natal nada mais é do que a comemoração da vida e ao mesmo tempo a lembrança da morte de Jesus, que viveu e morreu alienado. Ressuscitou no terceiro dia, segundo Paulus, que teria matado Deus à invenção da fé e da reencarnação e inventou o cristianismo para nos salvar. Salvar-nos? — Sim. Salvar-nos. Daí as missas, o climax de festa que virou a cristandade sinônimo do perdão e pedidos de esperança renovados, às expectativas recíprocas de presentes entre os eremitas. —Três eremitas? — metáfora. Mas isso é Paulus, a metáfora. Li em algum livro e ouvi de algum documentário histórico que eram dois!

A história de luta entre o bem e o mal é uma mentira transcendental alimentada pelo cristianismo cujo escopo é a salvação da alma ao reino dos céus, a vida após a morte. Ou é outra coisa? —Nunca sei nada sobre essas coisas de metáforas cristãs, quando muito, sinto que não sei, por isso, não sei o que sinto e minto, porque tento dizer do que não sei ou não tenho certeza se sei.

— Você, meu bom amigo, o que diz? — Poderia me surpreender se quisesse! Hoje, dezembro, de tantos natais, já comemoram-se às pessoas em nome do iluminado Jesus. Quantos motes já foram criados, infinitas luzes cintilaram e tantas dedicatórias de fraternidades foram dádivas ofertadas? — Diz-me qualquer palavra de boa-nova! Pensa e me conforta com a tua razão, meu bom amigo!

— Meu caro distinto, se eu tivesse que te confortar, só as minhas palavras não te bastariam, porque eu não sei da origem de tuas dores. Imagino que sejam as dores que instigam o homem moderno, desde o tempo primórdio do pensamento, a partir dos conflitos da inteligência. Por isso, só as minhas palavras levariam mais cargas pesadas aos teus ombros já cansados. Porém, se eu fosse tu, programaria uma viagem, um bel passeio à beira mar sob sol e às brisas úmidas dos oceanos. Como eu fiz neste fim de semana: aproveitei o convite raro de um amigo a ter ao seu apartamento no litoral do Atlântico, foram três dias de relaxamento e de preguiça. Pude ver a minha barriga como está grande e testar o meu condicionamento físico e, ainda, com gratidão à vida, pude ver bastante gente, muita gente, alguns aparentemente bem sucedidos, outros muito pobres, de periferias, alguns gringos gastando seus dólares valorizados em país ensolarado.

Grato, mesmo fiquei, porque pude brincar com meu filho na areia, pulamos as ondas do mar, vislumbramos outros oceanos. Vi como a minha mulher estava branca, de pele de gelo e precisando de sol e sal e areia do mar. Pude ver moças bonitas, sereias alvíssimas, morenas, moças feias e mal condicionadas e homens pançudos brincando de contar mentirinhas com limão. Pude até defender um direito de permanecer na areia da praia debaixo de um sombreiro particular de hotel de luxo, sem titubear, na areia fiquei sentado apreciando a orla democrática. Faça isso meu distinto amigo. Mude-se, tente-se a alternativas, conteste-se.

Uma vez, alguém teria me perguntado o que eu faria se todas as pessoas se encontrassem e se cumprimentassem e se beijassem e se dessem ao bem de se quererem mais. Não pude responder, porque não imaginei o quanto isso seria tão inusitado. Fiz-me crer que não há igualdade sem que haja diferença e, que toda razão não é mais que uma tola, santa ilusão, só às vezes é preocupante, outras vezes não. Fiz-me compreender, também, de que todos os nossos nomes e adjetivos, nada mais são do que uma conveniência de nós para nós-outros. Caro amigo, não sei vos responder mais nada, a não ser que mude, que procure e não se canse de pensar que o fado pesa mais somente em seus umbrais. Somos todos alheios a nós, quando então nos escutamos.

Pode ser alternativa para alguma pessoa viver indiferentemente, porque escolheu da vida um mero acaso. Tenho uma parenta do acaso, que escolheu a vida que leva à toa, afastada de sua família. Talvez, para mim ou para os outros, seja uma vida do acaso: pedinte sem pedir nada, mendiga, mas sem sentir a crise da mendicância nefasta nem do desafio da sobrevivência, só mesmo por opção. Alimenta-se da piedade e da bondade de certas pessoas, porém, desconhecem da verdadeira história da moribunda. Tudo isso para dizer de uma prima do Pará, que está perdida por aqui, solitária e andarilho das ruas do Cambuci. Não sei se é por doença da cabeça, não sei se é por decepção com a família ou se por própria decepção à sua existência. Quando me lembro das histórias que mamãe contava para mim sobre a Lalita, comovia-me, porque não as entendia, “fosse talvez fraca da cabeça”, dizia mamãe, quem sabe uma franciscana purgando os pecados à santificação. Não sei fazer tal valoração. Lembranças são poucas dessa gente histórica do baixo-Amazonas distante Tapajós.

Há dias que portava uma câmara fotográfica no porta-luva do carro, na esperança de encontrar Lalita a qualquer tempo, outras vezes, eu já a havia visto, mas o ângulo para fotografá-la era sempre distante. Hoje, 12 de dezembro de 2003, calhou-me a oportunidade. Logo cedo de manhã, ela me esperava, sentadinha no batente da porta de uma casa fechada. Mexia com os maxilares, parecia que comia alguma coisa, na verdade, mascava pão que ela mesma picava nas mãos e comia aos pedacinhos, como se lhe faltasse os dentes. Aparência rota do Brasil tupi-guarani. De pele vermelho-escuro, sob o vestido inteiro rosa e branco, uma malha de lã marrom já muito usada contrastava com a cor da pele queimada de sol e das canelas finas e pés sujos numas sandálias de borracha desgastada com os dedos e unhas malcuidadas. Bastante curva sua coluna vertebral, cabelos pretos e curtos mal aparados, outrora, dizia mamãe: eram longos. Traços de gente nativo do Baixo Amazonas: 1,60m, mais ou menos. Aproximei-me dela. Usei 10 flashs de uma pequena Pentax 35mm.

Não foi surpresa, as fotos ficaram boas com a nitidez perfeita da moribunda paraense, talvez, nascida à quarta década do século XX, para mim que tive a curiosidade de observá-la de pertinho, foi uma emoção. São 23:16 de sexta-feira, fiz contato com familiares da Lalita que vivem em Belém-PA, uma outra prima me garantiu que falaria com as irmãs dela que vivem em Santarém. Uma de suas irmãs, coincidentemente, visitava Belém à casa da prima com quem falei. Pretendo informá-la. Tenho plano de “repatriá-la”, se ainda encontrá-la por aí.

A pequena esquecida me pareceu muito bem com intervalos perfeitos do raciocínio, lúcida. Fez com que eu pegasse um envelope de papel, alertou-me da sujeira, mas peguei assim mesmo, porque quis. Para minha surpresa havia no envelope R$44,00, notas novinhas, duas de dez, quatro de cinco e duas de dois reais; só depois, em casa, eu tive a certeza de que havia no tal envelope a quantia de dinheiro. Esse seu gesto de sutileza me deu o veredicto da sua sensatez; como se ela estivesse me presenteando, pressupondo uma necessidade minha ou talvez me pedindo para que eu guardasse seu dinheiro, do qual naquele momento de andarilho, a ela não fazia diferença possuí-lo. Pode ser isso, se não for, o que mais poderia ser, hipotético?

Segunda-feira, 15 de dezembro de 2003, terá seqüência essa história. Irei ao serviço de Correio e enviarei seus retratos para Belém, porque me comprometi com a prima, que faria com que as fotografias chegassem até Santarém, onde Lalita tem irmãos. O mês de dezembro na nossa cultura é o mais cristão em audiência. Para mim todos os meses são cristãos. Todos os homens são filhos do Universo. Todos os homens pensam e sonham em oásis diversos com Deus, diferentes aos seus, e com a certeza de que entrarão no paraíso, um dia, por missão da santa bondade do Criador.

Dezembro das confraternizações segue aos 24 dias. Estou em férias desde o dia 19, volto qualquer dia de fevereiro. Ontem fui a um aniversário de amigo, 35, bebi vinho, comi e cantei o hino da vaidade, mas não me excedi a tantos olhares e luzes. Daqui a pouco, dois mil e quatro anos de Cristo, levarei meu Enzo à casa da Nonna e das tias para receber elogios e beijinhos e, comer as frutas do Natal, do tempo resistente, a Ceia faz-se mais uma história Jesus, judeu que assumiu o status dos céus por merecimento e projeções pretensiosas de Paulus.

Sábado, 27 de dezembro de 2003, 21:07, os grilos da minha cabeça dizem do tempo que me falta para o fim do ano — quatro dias e, tudo será novo, todas as esperanças se renovarão. Não haverá mais guerra no mundo. Todos os famigerados e vilões dos miseráveis passarão pelo purgatório, cada um com o seu pecado à cura da salvação e, cada vez mais se aproximarão do céu azul. Cada um a seu modo se ajustará à convicção do discurso da esperança. Feliz Ano Novo, planeta cristão, aldeias pagãs, vilarejos bárbaros dos confins do nunca, sermões de todos os matizes! Daqui a pouco não haverá mais queixas nem mais más-sortes do tempo contado, já passou.

Segunda-feira, 29 de dezembro de 2003, depois do Natal vem o dia de são nunca e o discurso do novo de que tudo vai melhorar, depois de amanhã. Vou esperar para ver se acontece, assim como todos queremos que aconteça como se de costume acontecesse: fogos pipocando nos céus de todas as cidades, cumprimentos e abraços e beijos calorosos e juras eternas de amor e promessas e pedidos impossíveis e possíveis de serem realizados a contentos. Vinho, champagne e um menu variado misturam-se com sorrisos, risos e cores de todos os matizes e, fogos ao calor das vidas brindam o ano vindouro. É assim há muito tempo, meus irmãos!

Hoje, 5 de janeiro de 2004, dia normal sem alarde. A rotina continua. Os mesmos problemas, as mesmas dores, a mesma labuta. Para o mais entusiasta só as dívidas de finanças aumentaram. Estou 30 dias de férias do total de 90, licença prêmio, uma espécie de benefício dado a funcionário público que durante cinco anos somente faltou 30 dias, incluindo faltas justificadas e não justificadas. Fico na expectativa de me encontrar em jornais, revistas e livros que leio na rotina das horas vazias de janeiro de 31, verão!

Hoje, 3 de outubro de 2004, vi muita gente nas ruas, o país fazia festa, diz-se da Democracia, diz-se da tecnologia, festa da consolidação da informática, isto é, da apuração dos votos das eleições municipais em tempo recorde. Li vários textos de políticos e ex-políticos atuantes dos bastidores, entre outros o texto do ex-presidente da República num jornal on-line do Rio, muito me deixou triste, porque democracia só mesmo nos seus “oito anos de governo”. Veja só a presunção!

O mês eleitoral continua, o segundo turno será em 31 de outubro, tudo leva a crer que o candidato do governador e do ex-presidente vencerá o pleito, segundo pesquisas do ibope. Vale tudo dos candidatos, fica-se sabendo até o que um candidato comeu quando ele era criancinha. De velhacos, estelionatários, mais espertos, menos espertos, há filósofos palpiteiros, corregionários. Eleições no Brasil é assim: vale as diferenças, vale quem engana mais o eleitor. Mas, às vezes, é surpresa, ganha quem nem sempre está mais bem cotado nas opiniões de alugueres tendenciosas, Hoje é 19 do mês, ainda haverá muitos santos pretensiosos abençoando esperanças excluídas socialmente e, fanfarrões tomando as dores dos enfraquecidos, infelizes co-cidadãos.

A rotina segue em notícias de jornais e de TV, bandidos roubam, aplicam golpes via Internet, estelionatários limpam contas correntes usando “alta tecnologia digital” males dos tempos insanos. As ofensas dos candidatos do pleito esquentam, vale quem é mais cínico e mente mais. Há agora uma correria para denunciar quem ficou milionário em pouco tempo. Quantos nomes novos apareceram! Promotoria, Justiça pública para que serve e a quem serve afinal? Não se sabe bem dos legisladores de Atenas! É apenas o cargo de prefeito do maior município do país que está na berlinda. Quanto dinheiro deve ter esta cidade! Todos os meios não justificam os fins.

Homens que passam, sentados alguns nos patamares da proteção do jardim, outros moribundos esticados, preguiçosos, no chão e, pedintes sem caras, abandonados são árvores balançando no vento de outubro no Largo Sete de Setembro. Quantos pombinhos catando pedrinhas, migalias de alimento disputam o aconchego da sombra e da piedade dos outros e do cheiro de urina que sai da terra, insumo das plantas! Todos famintos. Ao lado, o FORVM da justiça desses homens que passam, são aparências ou vultos sobreviventes de planetas distantes, mera ilusão do que é real — Leviatã, Leviatã — início precário das razões do sem fim. Alimentado, da janela o trabalho, vejo o asfalto, os ladrilhos da praça de colorido sujo e o céu são nuvens, ventos úmidos e chuvas que prenunciam o sábado e o domingo dos homens que voltarão cansados para suas casas.

Nos jornais de hoje amanheceram manchetes sobre política. Colunistas com as línguas afiadas para atacarem adversários partidários. Lá vem o candidato do ibope em manchetes, em carreata e fanfarronices seduzindo indecisos, no vídeo da televisão a propaganda é paga. Faz-se dos itens saúde, educação e emprego os patamares da esperança. Como é riquíssimo o peessedebista! Quem banca esses horários da televisão, eu não estou insinuando que seja o governo estadual, — será? Como é bom ser político dos pobres, coitados! E, ainda ser olhos preferidos de governador e ou de presidente. Falta mais uma semana para o fim do pleito. Mais alguns dias as urnas deflagrará mais um satanás para a história nos infernos dos homens brasis.

Interessante! Esse tempo de outubro é muito inconstante. Saí de casa pela manhã, o céu mostrava-se aberto. Havia nuvens espessas e o sol mostrava seus raios incandescentes, nem com uma malha leve lembrei de cobrir às costas. Minha mulher saiu discreta como sempre para esses dias de outono e sem casaco. O nosso menino queixou-se de “dores na barriga”, estava indisposto. À noite anterior, bebeu suco, um composto de soja. Eu me lembro que logo após queixou-se, mas depois dormiu.

É hora do lanche, para mim é hora do almoço, vício pelo qual sustento minha caveira em pé. Chove. Pela pracinha agregada ao patrono da João Mendes, veem-se muitos guarda-chuvas, alguns office-boys correm e buscam abrigos, porque têm pressas — o FORUM, o ônibus, o táxi e o metrô —, mas algumas pessoas molhadas da chuva fina contínuam vêm e entram no bar que serve almoço também: feijão arroz, “carne-picadinho”, frango ao molho, calabresa grelhada, saladas, maioneses e refrigerantes, eu vou de feijão com arroz, um bife na chapa e farinha de mandioca branca, isso tudo nessas horas de estômago palpitando, como é saboroso comer e ter saúde!

Da minha mesa, vejo os mais próximos camelôs de ervas milagrosas na calçada do meu quarteirão, um jornaleiro, ao lado uma menina branca de frete, um abrigo antigo de ônibus, um livreiro de sebo de frente faz paisagem junto ao abrigo de flores, e prostitutas, mocinhas novas de pele claras, algumas muito usadas pelo tempo, outras vieram de brasis diversos e esperam experiências de transeuntes ou de seus gigolôs. Santa Tereza, São Carlos, “Oba-Oba”, o meu cafezinho do almoço, obrigado! Ando um pouco, atravesso o semáforo, paro noutro jornaleiro que está em frente da pracinha, respiradouro dos trens subterrâneos, que o conheço faz tempo. É o Domingos, nome de descanso, mas que todos os dias é segunda-feira e, está com seus clientes e amigos “chatos”. Ainda mordendo palitos, falo de tudo um pouco, é a digestão inconsequente que faço, percebo conotações políticas e partidárias, logo mudo de assunto. Estamos em vésperas de eleições municipais e, os nossos candidatos não se conjugam por ignorância múltua.

Têm coisas na vida que preço nenhum paga. Umas dessas é observar a felicidade inocente da criança que cresce sem escopo de imediato. Mas sobre perguntas, exceto quando põe dúvida se já é grande e forte e, compara suas pernas com as minhas. — Pai, a minha perna já está comprida? — Claro! Respondo. Indaga, porque insinua que já pode alcançar os pedais do nosso carro e assim dirigi-lo. Observar o filho brincar e vê-lo crescer já valeu a pena ter existido! Seu mais novo capricho é a fantasia da indiferença ao custo de vida. Ser criança é se deixar ser pai participativo e, vencido pela inocência. Eu não me lembro ter sido criança tão inocente assim, lembro-me de papai e de mamãe e muitos irmãos sobre algumas distantes atividades ora de trabalho ora de lazer em rios transparentes de Santarém. Outras vezes, via imagens de parentes, os mais próximos caçoavam de um menino triste que andava e bricava nu.

Família é assim e, por extensão, mais que isso. Um ano se passou, ainda tenho visto a tal parenta à toa e mais suja e curvada da espinha. Seus irmãos nunca me telefonaram, sequer uma linha solidária me escreveram. Às vezes, tenho a impressão de ter povoado insônias em tais instintos distantes. O que será de mim e da Lalita e de seus irmãos ingratos? De certo, tornar-se-ão mais um ramo de árvores genealógicas da espécie, estirpe efêmera do Universo. Ou, antes do pôr-do-sol, essa criatura pode deixar o purgatório dos homens ruins e venha ser aceita ao paraíso da vaidade humana, como deve ser a vida, vaidade ou mentira.

Terminaram as eleições municipais. São Paulo não reelegeu sua prefeita. O candidato dos filósofos palpiteiros, mediadores medíocres de opiniões, acostumados a manipular a ignorância, venceu. — Quantas promessas foram renovadas! O horário de verão vem com novembro de finados, ontem passei pelo cemitério, quis ver o espaço reservado por três anos de papai. Falta mais um ano para exumação dos ossos. Senti saudade. Muita falta ainda me faz papai e mamãe, dores que sentirei até o meu fim. A poucos metros daqui dessa quadra mamãe foi cremada e, neste mesmo campo de almas, toda a vida é transparente. Vede, caríssimo, aqueles vultos vivos, então, transparentes e desconhecidos. Todos cegos perambulando entre covas e flores tristes.

Pela manhã liguei para Vitória, quis saber de sua vida nessa sucessão do tempo contado a cada dois de novembro, disse-me estar bem com o marido aposentado: dorme, come bem, agora faz ginástica e caminha, caminha em busca da longevidade. À noite, não perdeu o hábito de comer e beber vinho ou cerveja com o meu cunhado. Falamos da possibilidade de um encontro casual, para comer e beber vinho tinto e jogar conversa fiada sobre tudo. Algum tempo atrás era assim: nós três saboreávamos vinho e amanhecia; depois Enzo me ocupou e preencheu meu tempo solitário. Hoje, ele tosse, contudo brinca, é muito agitado, as tias, avó e amigos dizem que é apenas uma fase. Mais uma fase de tantas! É noite, 23 horas, os grilos fibrilam nos tímpanos, adiantam a madrugada de outono que demora. Silencia. Tenho sono.

Quarta-feira de novembro, o céu amanheceu aberto e mais claro, as previsões meteorológicas são otimistas para esse fim-de-semana. Na América do Norte as urnas reelegeram o conservador — amigo das armas. De certa forma, não ficou ruim para Bin Laden, viva a guerra dos santanases! Por aqui, os ânimos ficaram mais acentuados entre perdedores e vencedores partidários. Aos eleitos, a serventia dos contribuintes de maioria inconsequente, ordeiros cidadãos do eterno longo prazo ao social. Sobram para os fiéis os ministérios das queixas e o purgatório, muro das lamentações. As missas, as grandes festas populares, as procissões profanas puxando esperanças, as arenas lotadas de cães ferozes, futebol, carnaval, pão e água ao povo de Jesus.

O tempo dessas histórias desoladas passou. Hoje, novembro 4, chove desde madrugada, mas nem por isso deixei de cumprir a rotina, subia a Coronel Diogo do Cambuci de automóvel, vi a prima mendiga desolada puxando a vida num copo de plástico de “café-com-leite” e pão. Tive a visão estereotipada das cores do arco-íris no inferno. Seu fado havia aumentado a curva da espinha mais curvada e seu desencanto era triste ou, talvez, indiferente, ainda carregava no lombo as malas, trouxas e sacolas de plástico, todas cheias de mentiras de papel e de quaisquer coisas inuteis. Mas faz um ano que te vi passar, estavas assim, humildemente desencantada, abri a janela e vi teu retrato torto, disse qualquer coisa a minha mulher, sem saber de quê ? Imaginei o pôr-do-sol, um acaso. Feliz aniversário, meu amor!

Pronto-Socorro, In Verdade, nov/2003 -2004

Um comentário:

avatá disse...

reler e apreender o que ainda não tenho e não sei se terei (...) boa leitura despretensiosa desta manhã de 1ª sexta-feira, 2012.