terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Jornada-de-vento

Fotografia: Cristo Redentor in Olhares.com

Se você está aqui somente para me indagar, eu lhe afirmo: nem sei se vale a pena saber de qualquer aventura, por nada nesta vida eu me justifico. Poupe o seu tempo precioso, por que querer saber agora, justo agora em que anoitece e sem a luz do sol, eu não enxergo nada. Demais os porquês das coisas são todos alheios, somente você não sabe. Não sabe? Não sabia? Muito eu me lembro das poucas vozes que ouvia, orientavam os meus caminhos, insistiam-me nas trilhas em que as folhas caiam dos galhos e os ventos em nuvens de poeira sopravam-nas sem rumos além-estradas de enduros.

Eu a vi sair de casa, enquanto avistava-a sumia-se rumo a Oste, logo, deu-se o pôr-do-sol no horizonte, sombreou a noite os meus olhos, sem luar porque minguante, nada se via mais. Por isso, não me indague, não me queira saber do quê eu não sei. Mas se aqui veio para também ouvir as outras razões, seja de quem for não são as minhas visões que lhe darão guarida. Sente-se comigo, conjugue-se as minhas dúvidas, indaguemo-nos os dois a todo mundo, porque uma alma dessas que o vento traz e leva ante o tempo outono, de certo nos dirá por onde andamos nós.

- Não. Não me convenci de tuas palavras, não percebi de quem tu falavas, não ficou clara a idéia de que não somos os primeiros justos a tropeçar em bancos de areia nem a desfazer pegadas. Não somos nós somente os moribundos céticos. Se eu cheguei aqui e juntei-me a tua sombra, foi na esperança de não olvidar mais dos teus conselhos. Vim porque acreditei, vim porque acreditava na tua fé isenta que tens dos tempos idos e dos homens que passam. Ainda penso que entre mim e ti só há sintonia de corpo e alma, se é que tu acreditas em almas, porque de vez em quando ouço de ti algumas referências em seres abstratos, eu não sei se alma é um ser abstrato, mas sei que é da imaginação e de que muita gente age ou ainda se intera com esses pensamentos. - Tolices?

- Nessa linha de traspassadas idéias, eu até me aprofundaria mais. Veja-se do Amor e da Verdade e da Ética e da Beleza. Quê tu me dirias? Não me explique da Gramática normativa nem da Filosofia, tampouco da Semântica, greco-latino. Todas estas são alheias de livres arbítrios. Os mais crédulos acreditam que não são de livres arbítrios. Há uma explicação teimosa e muito bem arrazoada que sustenta a teoria do substantivo, a matéria-prima, a fartura dos nomes, a partir de o princípio da substância. Os homens, os mais antigos foram discípulos profetas avulsos de Platão e de Aristóteles, os contemporâneos ainda os são - todos nós?

- Entretanto, se tu quiseres terminar com essa conversa longa e enfadonha, que por mim ou por ti, até por nós, seguiria a noite adentro, sem timoneiro, então, logo me responda o quê não quis saber, e por dedução me subestimaste? - Eu vim até aqui porque quisera a tua companhia. As noites fortuitas são frias e a mim se escassa o sono nas noites quentes de verão. - Tu sabes muito bem qual porto me espera. Contudo, somamos nós aqui às nossas pedras.
In Verdades - 10 fev 2001

3 comentários:

antonio c. marques disse...

Oi, Simão! aceitei o seu convite e fui ler o seu texto "Jornada-de-vento". Para mim, não é estranho nada de que você escreveu, pelo contrário, o ser humano passa por toda essa ventania, estados variáveis do espírito, enquanto está vivo, ainda bem que somos assim. Acredito também que para se "filosofar", o remédio é distrair-se o quanto mais, porque assim viajamos absoluto para dentro de nós sem pré conceitos. Você tem algo de bom em suas temáticas, a precisão do raciocínio. E falar das "coisas", para você é sempre um prato cheio. Mas gostaria de lhe dizer que não sou filósofo como você me chamou, entretanto fico honrado de ser também "professor das coisas naturais", palavras suas, colega seu de profissão, opcional. Vale ainda dizer, do penúltimo parágrafo do texto a alusão nítida à Academia Francesa "Paul Royal". Uma certeza eu tenho, meu amigo: o Jõao, mestre comum, ficaria feliz em ler esse parágrafo, de certo também orgulhoso de seu discípulo que quis ser professor somente por opção como você mesmo dizia.
Valeu, Simão. Com mais tempo leio as outras "coisas".
saudades, do amigo.

simao disse...

Meu bom amigo Antonio Marques, como está você? Saudades... Caro amigo, tomei a liberdade de editar uma coisinha só com relação a academia de: PORT-ROYAL - Arnaud e Lancelot, você quis dizer. Você tem razão, eu tenho boas lembranças daquelas aulas do prof. joão, gde. joaozinho...

obrigado, abraço
simao

Anônimo disse...

Olá Simão, obrigada por comentar no meu blog, volte quando quiser.
Sua visita muito me honra, dada a qualidade de seus textos, e se me permite, voltarei muitas vezes para poder apreciá-los.
Adorei!
Abraços....Flor
(Amor aos Pedaços)