quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Retrato

Sisi fotografia - in Olhares.com
Quando me dei conta já havia passado pelo teu rosto inerte
A tua face branca era um templo em gesso suspenso e quieto
Carismática era uma flor emudecida
A minha dor foi se acostumando a tua dor
O teu abrigo agora era o meu abrigo
Eu sem ter te vivido
Pus-me a pensar

Esse tempo que persegue impiedoso
Tão capaz e mais infalível do que nunca
Algumas vezes as árvores são centenárias
Outras vezes orquídeas morrem sem a luz
Mas fica a história a dever ao tempo explicação
Caçamos a memória estampada no teu rosto
Da lógica decadente que restou do teu retrato frio

Volto a ti e és uma criança muda
Outrora nascente rumo ao mar sem dores
Ontem corrias entre as flores no jardim da vida
Eras sã e a tua carne uma alegria da terra
Hoje é o amanhã que não te espera
E este mormaço estúpido que te aquece a alma
Exala um odor de cera triste

Assim caminhando sem me dar conta
Percebo a candura nas parábolas
Que contavam das tuas aventuras ricas
Outras eram tristes e sem nexo
Se não toda tua existência fora um tédio
Perfeito o teu retrato sem lembranças
Um brilho fosco
In Janelas abertas -1ª ed. nov 2007

2 comentários:

Isabel Martins disse...

Simão, você está sempre variando temas; amores muito perto, amores muito distante, as árvores da vida crescem e somem. é assim mesmo a vida ...

da amiga,
bjs. bel.

Ana Maria disse...

Olá, Simão! às vezes os olhares das pessoas são assim parados como quem quer e ao mesmo tempo não quer ver nada, também imagino o olhar dos poetas como deve ser, caótico no bom sentido das palavras, "parábolas cândidas" a todo instante, momento da vida, diz o poeta ...
Gostei dos teus versos, não porque fui convidada a visitá-lo, mas porque gostei.

bjs. aninha