segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Tarde de Verão

Não se iluda com estas sombras frescas na cidade, pois se estão avulsas e perdidas, eu ainda não sei. Corvos te olham à espreita do céu em nuvens escuras da tarde do verão e as andorinhas em vôos rasantes entre os fios elétricos desviam as asas dos galhos das árvores da praça do fórum da cidade, pombos alheios se agitam entre gentes marcadas e excluídas às margens sociais.

São aves sujas em bando rolando no chão cuspido, defecado, odores de urina, esperam as águas das nascentes, rios em galerias das marés pluviais, para o frescor da tarde de janeiro. Nato morto visto com olhos indiferentes, catam migalhas e farelos de pão e cospem em pés descalços, em galhos secos, entre dedos e odores aos cantos tristes, tediosos de sabiás, pedintes e irrequietos.

Lá no alto sobre a colina de pedras sem mato verde, olhos assustados esperam em comboios enfileirados, às badaladas do Sino da SÉ, gente que se vai e se vem, têm pressa, os transeuntes passam que partem logo rumo aos purgatórios noturnos da periferia, antes do temporal em trânsito caótico, escura fumaça de gás-tóxico e decibéis, inundar teus olhos, não se iluda.

As árvores daqui são mais frondosas, os caules entrelaçados góticos arranham o céu, sobre as nuvens, folhas em janelas coloridas, algumas mudas em verde desbotado à cor do sol, amarelo cinza da tarde de janeiro e raízes fincadas em cimento. Dos ninhos subterrâneos brotam os filhos de pardais em troncos e choro sufocante das latas poluentes.

Não há quem diga nem quem se lembre d’outros tempos de jardins do paraíso, riachos límpidos, amplos campos em colinas da Mantiqueira enfileirava verde-musgo cafezais! Transmuta a correria de canaviais em néctar de açúcares venenosos do gozo extintos dos bem-te-vis.

Vem ter dessas preces! Mas não se iluda menina, pois são ásperas, ingênuas e quase nada eu sei de ti. Vem ver se condiz com a tua verdade o quê de natural perdeu o valor, e a consciência, nada importa mais. Vem que ainda há luz e tudo de mal-me-quer passa em tempo perdido dos cronômetros agonizantes, não se iluda mais, menina, chove.
In Verdade – 21 jan 2008

Um comentário:

Anônimo disse...

Caro amigo, eu também vi São Paulo ontem, de fato estava assim, cinzento, nuvens escuras no céu e chovia fino, à tarde, sem muito esforço, choveu mais forte, janeiro ficou assim, todo dia muita chuva, vento e se o rodízio de carros estivesse livre, você ia ver uma coisa pior, o trânsito e quilômetros de engarrafamento, principalmente nas marginais... O que você viu não deixa de ser grande verdade desses tempos malucos do mundo.
Legal!
abraço, theo